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Title: O Cortiço Author: Aluísio Azevedo

Página 6

--Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem! --Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas da esquerda! --Não preciso levantar parede d'esse lado...

--Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...

--Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará! --Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...

--Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá quem quizer metter-se cá com a minha vida! --Passe bem! --Adeus! Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados.

Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado, não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos, valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o trazia preoccupado--a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha de cortiços que alastravam por Botafogo.

Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á noite um formidavel cão de fila.

Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem correr o risco de ser assaltado pela féra.

--É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros.

--Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu tambem tenho capricho! Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango, fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço.

João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando vinganças terriveis, fallando em dar tiros.

--Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella.

D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras da estalagem.

--Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez! E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para voltar multiplicado.

Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes, aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa, uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as unhas..

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