Title: O Cortiço Author: Aluísio Azevedo
Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel.
Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor.
Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.
Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa: o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.
Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas.
Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anneis e brincos de metal ordinario.
E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene.
Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com penhores de oiro ou prata.
Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação.
O Miranda rebentava de raiva.
--Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janellas!... Estragou-me á casa, o malvado! E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de sol a sol.
O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia ameaçado por aquella serpente de pedra e cal..
