Title: O Cortiço Author: Aluísio Azevedo
Não se fallaram.
Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer.
Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada; descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio.
E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado, achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza.
Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama.
A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral em nada enfraquecida.
Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar.
Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão.
A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda.
Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O taverneiro recussou formalmente.
Miranda insistio.
--O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza.
Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro, sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa! --O quintal? --É exacto.
--Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada? --Para mim era de vantagem...
--Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe propuz.
--Já disse o que tinha a dizer.
--Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
--Nem meio palmo! --Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para alargar-se.
--E eu não cedo, porque preciso do meu terreno! --Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa! quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda! --Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali! --É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer saber? não amuro o quintal sem você decidir-se! --Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha a dizer já disse! --Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu quintal?....
