A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
--Que não estava; eu sou o chefe--disse o Gaspar.
--Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á frente d'este bom povo enganado--ponderou a auctoridade.--E vocemecê quem é?--perguntou ao chefe.
--Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o perseguiram e lhe roubaram os seus bens.
O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões.
Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio, trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se _aos seus apriscos_, á honrada labutação _dos seus mesteres_, e a não perturbarem com _demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima inviolabilidade das instituições_. Quando o funccionario fechou a parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!» A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo de marcha cadenciada.
Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.
Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de 1834--um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias.
Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e solemne dos de Santo Thyrso,--é agora, rapazes!--exclamaram, desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas.
Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio dos pinhaes e carvalheiras.
O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes--uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juizo! O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas, aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo..
