A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas, enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios, os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta.
Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero humano:--uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe _vivas_.
Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida, casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia, presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto, e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o _General Defensor das cinco chagas_.
Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos.
A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além, ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse em se metter á ponte.
--Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem tem de largar os sócos a fugir--avisava, porque sabia que os de lá eram _têzos_, e vinham todos armados.
O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos de aguardente.--Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da ponto abaixo!--protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com as cronhas no balcão.
Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia, olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe..
