A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
--Ó alma do diabo!--dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a arma com zagalotes para lhe atirar.--Vou matar aquelle pato bravo! E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai: --Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle tem á espada! Aquillo é que é! A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!» Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido.
Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D.
Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a lamina da espada nos ossos dos malhados.
Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se môva--como dizia o frade de Barrimáo.
[Nota de rodapé 1: Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho que a pag. 254-255 dos seus _Apontamentos para a Historia contemporanea_, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de Lisboa da _commissão alimenticia_, 1.000 francos mensaes que com toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente lhe manda o _duque de Modena_ e 6.000 francos do _imperador Fernando d'Austria_, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a 400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia domestica." _Chegando apenas para a despeza domestica_ de D. Miguel, 72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.] IV Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel estava no seu reino, e--o que mais era--muito perto d'alli. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S.
Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarcha legitimo--explicava. O major Bezerra era commendador da ordem e conhecia a cifra:--que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai: --Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda....
