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A brazileira de Prazins: scenas do Minho.

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O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou a Martha.

--Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, cachopa?--perguntou o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, orbiculares, com as hastes oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que era o José de Villalva: --Foi este? --Esse nunca me disse nada--respondeu com a voz tremula, toda vermelha, a rapariga.

--Foi este? Martha não ergueu os olhos nem respondeu.

--Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é que algum embarrou por ti.

--Eu não me queixei...--murmurou a interrogada.

Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ella subia a escada.

O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o sacerdocio--uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma tenda por motivos de architectura--um martyrio de artista. Invejas. Por causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega, dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto.

Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e o _Grito das almas_, decifrava menos mal umas sentenças velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas.

--Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.

A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua saude fraca, um pelém.

N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão de Prazins, de um modo quasi original.

--Você quanto deve, ó tio Simeão?--perguntou.

--Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas? --Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo..

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