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A brazileira de Prazins: scenas do Minho.

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Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias sentimentaes--detestavel especie archeologica que ninguem tolera,--farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, bravias como sêrro de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra n'uma idéa a sua certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as phrases--madeixas do espirito--são refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes.

I Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando embarcou, e o resto para elle--«5$400 réis, dizia, é que o maroto, podre de rico, me mandou em vinte annos!» A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam quasi nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da alma que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a ordenação--uma coisa que se fazia com uma perna ás costas, diziam certos vigarios--sem precisão absoluta de puxar pelas memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o filho do _latim_ que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr.

Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não desconhecia o crochet e ensinava raparigas para se distrahir.

No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito séria com proposito de mulher e ares muito sonsos--diziam as outras, que lhe chamavam a _songuinha_. Os outros estudantes, rapazolas vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a Martha--chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica, pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira.

Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha.

Queixou-se a Fr. Roque..

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