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EÇA DE QUEIROZ - OS MAIAS EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA

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Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve um filho, desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha moço, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia amada que lhe encantaria a velhice.

Mas não esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; essa rude conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_ para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava tão bem os vicios e as paixões...

Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da sua alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de Catões e de Mucios-Scevolas. Já admittia mesmo o esforço d'uma nobreza para manter o seu privilegio historico; mas então queria uma nobreza intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral, formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras patricias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e sordido.

Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e armas escondidas.» Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo «que os tempos iam bem duros...» Desde essa manhã as janellas do palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho, Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.

Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e calmas paisagens de Surrey.

Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.

Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.

Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_, ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a protestar vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na terra estranha entre os vencidos da mesma idéa--os fidalgos e os desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe, o exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome, á vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim do liberalismo. Isolou-se então--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas quando a primeira expedição partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados, respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar d'Inglaterra!.

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