Logótipo ClassicosDeLeitura.com
O prazer da leitura clássica
Buy Me a Coffee at ko-fi.com
📖 Textos baseados no Project Gutenberg. Ver Licença.
🪶🪶🪶🪶🪶
Carregando média...

Title: O Cortiço Author: Aluísio Azevedo

Página 2

O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.

--Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você.

Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.

N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.

--Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver.

Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego! --Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu! --Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova! Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento.

Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.

--O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras! Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!» Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os freguezes e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas camisas de riscado.

João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella.

Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas em obra que havia por ali perto..

📖 Catálogo completo