A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Martha o ouvisse.
Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume, desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia sarcastico: --Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar os miolos á cara de você.
Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante--que os cães não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:--que venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a fazer meia com a cesta do novello no braço.
--Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na lingua--advertiu o José Dias com uma serenidade de máo agouro--quando eu lhe ladrar então se fará com o machado para mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que mais quer você, homem? Siga o seu caminho.
--O meu caminho? o meu caminho é este--disse batendo com o machado na terra.--Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja tolo.
A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos bebedos, e berrava: --Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço d'asno? E o estudante, já amarello: --Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com elle.
--Ó alma do diabo!--exclamou o pedreiro crescendo para o caçador.
N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira, que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da nadega esquerda.
O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada; mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis, exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido: --Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças, seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as calças, e não se afflija....
