A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume, está escripto o nome do possuidor--_José Dias de Villalva_, e a carta é dirigida a um _José_. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra a carta.
Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando morreu.--Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria da Fonte.
--Pois elle amou a Maria da Fonte?--perguntei com ardente curiosidade historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu: --Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos escrivães, sabe vm.^cê?--Acho que foi então ou por perto. E ajuntou:--Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a Martha...
--Martha?--disse eu com a satisfação de vêr confirmada a assignatura do bilhete.
Vm.^cê conhece-a? --Não conheço.
--É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.
--Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
--Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho.
Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.
Interrompi com interesse de artista: --Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado? --Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos estudos e sabe todas essas trapalhadas.--E n'um tom de noticia festival:--Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito? --Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora! Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.
Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado..
